Perfil
thiagofranca maio 27th, 2008
Thiago França
por Nei Lopes
“Thiago França (a responsabilidade deste texto é só e toda minha, garantido eu nos meus 65 anos e na carteira da OAB que me dá direito a prisão especial) poderia muito bem ser um Kenny Xis, um Miguel Popshit, um George Abelha ou um Zé Requinta desses aí, que tocam sax “soprando” e acham que Bechet é apenas uma sacanagem dos bordéis de Paris.
Thiago França poderia muito bem ter estudado na Berklee. Porque em 1980, quando nasceu, objetos, palavras, expressões e práticas como cooper, surf, walkman, fitness e asa-delta começavam a integrar o cotidiano dos brasileiros mais abastados e a música disco já adentrava os salões nas academias de ginástica.
Thiaguinho com 1 ano, o que tocava nas rádios jabazeiras de todo o país era Baila Comigo, Lança Perfume e por aí, com Rita Lee de porta-bandeira, Nelsinho Motta de dono do enredo e Lincoln Olivetti de diretor de bateria. E o ano de seu segundo aninho foi o do surgimento do grupo Blitz, tido como um dos fundadores do chamado “BRock”, expressão, ao que consta, cunhada pelo jornalista Arthur Dapieve. No terceiro aniversario do moleque, Jorge Davidson, passando de assistente do departamento internacional a diretor artístico da gravadora EMI, levava as fitas-demo da Blitz e dos Paralamas do Sucesso à outrora gloriosa gravadora e, depois, já como diretor, contratava um bando de bandas, de Legião Urbana até só o Demo das Fitas sabe quem.
Chegava-se, então, depois do lançamento do grupo Sepultura, sempre cantando (ou morrendo) em inglês, ao primeiro Rock in Rio, realizado em 1985. Nesse mesmo ano , ocorria o estouro de Nem Morta, balada de Michael Sullivan e Paulo Massadas. A partir dessa balada S & M produziriam, no período seguinte, com o suporte do diretor artístico Miguel Plopschi, uma série de hits (sic) , alcançando em 87 o segundo lugar na listagem do ECAD, atrás apenas de Roberto e Erasmo Carlos. Outros sucessos da dupla, ainda em 1985, sempre no escaninho do pop-rock, foram : Whisky a Go Go, inspirada no cantor Johnny Rivers, trilha sonora da telenovela global Um Sonho a Mais; Um Dia de Domingo, Leva e Uni, Duni, Tê, com a Turma do Balão Mágico, um grupo infantil também levado na onda pop-rock.
No espaço, iniciaram-se ou começaram a aparecer os grupos Blitz, Kid Abelha, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Barão Vermelho, Capital Inicial, Ultraje a Rigor e Titãs. E o discurso supostamente contestatório dos negões paulistanos do rap, era logo engolido, a partir do lançamento, em 1988, em São Paulo, de Hip Hop Cultura de Rua (Eldorado), coletânea tida como o primeiro disco de rap nacional.
Bem… aí, Thiaguinho, que em vez de ir para Los Angeles ou Miami, deixara sua Belo Horizonte natal, juntamente com a família, para ir morar em São Paulo, não agüentando o trampo, ô meu, pediu arrego. E três anos depois, com 11 anos de idade, já estava estudando saxofone de verdade e começando a ouvir uns crioulos estranhos como Thelonious Monk (1917-82), Charlie Parker (1920 -55), Miles Davis (1926-910, um crioulinho de boa família chamado Brandford Marsallis (1960 – ) e, sobretudo, mas sobretudo mesmo, porque era frio, um tal de Dexter Gordon , falecido, aos 66, dois anos antes.
Mas o gosto bom, havia muito tempo, estava mesmo era dentro de casa. Avô chorão, tias pianista e cavaquinhista, pai violonista dos bons além de compositor; muito Tommy Dorsey, Raul de Barros, Tom Jobim, Glenn Miller, Waldyr Azevedo, Abel Ferreira, Jacob, MPB-4, João Bosco, tudo isso rolava.
Coltrane e Michael Brecker vieram depois. Como os songbooks do saudoso Chediak. E o som combinadinho de Zé da Velha e Silvério Pontes.
O choro e o jazz chamaram o samba. Tipo “Baden Powell apresenta Paulinho da Viola; que puxa a Velha Guarda da Portela; que chama Zeca Pagodinho; que põe na roda o Grupo Fundo De Quintal”. E aí, 1999, Thiago já está na Unicamp, mas cursando uma música popular que só queria saber de jazz progressivo. Qual o jeito? Voltar pras Gerais e ser erudito (por não dito) na UFMG. E é nessa que entra na história o “Copo Lagoinha” e a “Utópica Marcenaria”.
Copo Lagoinha, pra quem não sabe, é aquele copo de boteco, riscadinho, que os cariocas chamam “paulista”. E Lagoinha, em Belô, é um bairro proletário, de periferia, ao qual a rapaziada, um regionalzinho universitário esperto, de samba e choro, resolveu “sacomenagear”, adotando o nome: Grupo Copo Lagoinha. E Utópica Marcenaria é nada mais nada menos uma marcenaria, mesmo, no Alto da Raja Gabáglia, que à noite vira um belíssimo bar com música, Belo Horizonte iluminada a seus pés. “Pela primeira vez na vida, tocando profissionalmente samba e choro, a coisa começou a tomar rumo; eu comecei a criar identidade musical” – disse ele.
Ali eu vi Thiago brilhar. Com seu grande talento, sua jovialidade respeitosa, sua simplicidade e sua extrema simpatia. Tornamo-nos amigos. E qual não foi minha alegria quando o reencontro em 2004 , já morando de novo em São Paulo. Aí, a primeira providência – pensei eu – era apresentá-lo aos meus parceiros paulistano-cariocas do Quinteto em Branco e Preto. Mesma juventude, mesmo gás, mesmo suíngue, mesmo talento. Não deu outra: São Mateus, Santo Amaro, Bar do Tim Maia, Samba da Vela, o sax caiu no samba pra valer.
A GAFIEIRA, muito mais que um clube popular voltado para a dança de salão, é um pólo difusor de comportamento e de musicalidade. É um jeito de ser, viver, vestir, dançar etc. E um jeito de tocar para encantar os dançarinos. Porque música sem dança, que me desculpem os chorões ortodoxos e os da bossa-nova de banquinho, isso é coisa de Scala de Milão, Municipal, Metropolitan… e não de baluartes como o meu amigo “Thiago de Xangô”. Xangô que, aliás, segundo a boa tradição, inventou os tambores e, com eles, o prazer de dançar.
Um CD sobre o qual não preciso escrever mais nada. Faixa a faixa, os saxes e os arranjos de Thiago França mostram sua nada utópica carpintaria. Ele, os meninos do Quinteto, Dona Ignêz de Castro, a querida vovozinha do nosso artista e todos os amigos músicos, com o que fizeram nesse disco, dizem muito mais do que aquilo que eu quis dizer lá em cima.
Thiago, 27 anos, está careca de saber que a melhor música que se faz hoje no Brasil é essa, a da amizade e do talento independentes.
Thiago, filho musical de Pixinguinha, K-Ximbinho, Paulo Moura, Juarez, Cipó, Macaé, os dois Moacir, e outros Santos, está careca de saber que música é música, o resto é o resto.
Thiago está careca de saber que Exu é o dono do Corpo, da sincopa. Que Xangô é o dono da música. E que o choro é o samba em forma instrumental.
Thiago está careca… Caô Cabiecilê! Salve, Thiago Rei de Oió! E de França”.
Maio, 2007

Lindo!!!!!
O maior saxofonista que eu conheço
Parabéns pelo trabalho. Do pouco que conheço, já sei que é sucesso na certa. É muito bom ver um artista se destacar por força e brilho próprios.
Parabéns Malandro pelo belíssimo trabalho.
Que Deus e Xangô iluminem sempre seu caminho e não esqueçam do nosso!
Um forte abraço, e nos vemos no sábado no Ó do Borogodó, passa por lá para almoçarmos, ok?!
abs,
Cabelo
Jovem, parabéns pelo sítio bem bolado.
Depois conferirei com mais calma.
Até breve e boa sorte!
Ácido esse texto, não acha?
Mas verdadeiro. Ponto final
Perfil babaca!!!