Mais uma pras gafieiras. Esse choro é bem desconhecido, gravado pelo Saraiva, o Rei do sax soprano, que hoje em dia também não tá tão conhecido assim… Os compositores também são desconhecidos. Eu tenho essa música num CD coletânea do Saraiva, “As vinte melhores”, o único que encontrei até hoje, desses originais com cara de pirata, mas só fui prestar atenção nessa música quando uma aluna da Orquestra de Samba e Choro de São Mateus sugeriu tocar. O Saraiva foi um grande músico, sobretudo de gafieira.
A composição tem uma estrutura bem simples, três partes tocadas direto, sem repetir, A-B-C, sendo que a segunda e terceira partes são bem parecidas. A harmonia é praticamente a mesma nas três partes, o que é raro e por um lado bastante interessante: os solos podem rolar abertos (open), bacana pra improvisar à vontade:
Essa cadência, o pessoal do samba e do choro chamam de “quadrado”:
||: F | D7 | Gm | C7 : ||
podendo variar com um diminuto no lugar do V do II.
||: F | Abº | Gm | C7 : ||
Mas o legal mesmo é que é mais um choro pra instrumento de sopro, com lugar pra respirar, uma melodia bonita e suingada, vale a pena!
Ouvi umas histórias do pessoal da antiga sobre o Saraiva. Uns disseram que era um músico medíocre, que gostava de tocar choros com harmonia fácil (como esse) porque ele era ruim de ouvido e não sabia harmonia, e que por isso só compunha choros sem modulação. Papo de músico velho que tocou com ele há 200 anos atrás, vai saber…
O que eu ouvi dizer de quem frequentou as gafieiras foi que o Saraiva era um verdadeiro artista, super carismático, andava alinhado e que os bailes eram sempre cheios (anos 50). Mesmo quando tinha cantor, o baile esquentava mesmo era na hora do instrumental, e quando ele tocava “Saxofone, por que choras?” não ficava ninguém sentado. Eu acredito que, no mínimo, ele foi muito corajoso pelo fato de ter assumido a função de tocar só sax soprano, considerado um instrumento pouco versátil, e pelas gravações, não era um músico qualquer, tinha propriedade, linguagem e sonoridade brasileira. Coisa rara.
Aproveitem!
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