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PROGRAMA ENSAIO – 2/2

banda: Chocolate, Vitor Pessoa, Eu, Magnu Souzá, Everson Pessoa, Maurílio de Oliveira e Ivyson Casca.
na frente, Beth e Fernando Faro.

Passou ontem na TV Cultura o segundo programa Ensaio que eu gravei, desta vez com a Beth Carvalho. Para alguns pode não parecer, mas falar da Beth não é fácil. Por toda a sua história dentro da música popular brasileira, dizer que é uma grande cantora, ou que é uma grande sambista, é muito pouco. Qualquer coisa parece pouco, qualquer comentário parece pequeno. Dizer que foi uma honra gravar o programa com ela, que deu frio na barriga, também parece pouco. Fiquei muito tempo pensando no que escrever e cheguei a conclusão que se não fosse escrever um livro, seria pouco.

Dessa vez, além da Beth, ainda tem o Quinteto em Branco e Preto. Aí então é melhor nem começar, seria outro livro. Que felicidade é poder trabalhar com essa rapaziada!

Mas tem um fato que pra mim sintetiza tudo que eu gostaria de falar sobre ela. Há uns trinta anos atrás, Beth lançou em Belo Horizonte, na quadra do Clube Atlético Mineiro, a música “Vou Festejar” (Dida, Neoci e Jorge Aragão). O samba virou o segundo hino do time, e a Beth, como não poderia deixar de ser, virou madrinha da torcida!
Hoje em dia, que os contadores e marqueteiros comandam o mercado musical, com tantos artistas descartáveis por aí (mas esse papo é chato, não vou entrar nele), tal feito não seria possível. Trinta anos depois, ao final de todos os jogos do Atlético em Belo Horizonte a torcida canta religiosamente essa música, ganhando ou perdendo. É difícil imaginar hoje em dia, um(a) artista capaz de causar um impacto dessa grandeza, comunicar desta forma com o povo, com verdade, com paixão, e o povo se identificar com ele(a).

Eu vejo a Beth Carvalho assim.

Beth Carvalho no Mineirão

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OLHA QUEM CHEGOU!

Da esquerda pra direita:

Gerson da Banda e Jorge Neguinho: ritmo; Douglas Pity: surdo; Léo Rodrigues: pandeiro; João Borba; Dona Inah; Eduardo Gudin; Thiago França: sax, flauta, arranjos e direção musical; Marco Bailão: violão; Gian Corrêa: violão de 7; Henrique Araújo: cavaquinho e cavaquinho com afinação de bandolim; Alexandre Ribeiro: clarinete e clarone.

É isso aí, rapaziada! Sucesso total, grande show de lançamento do disco da Dona Inah, que eu tenho o orgulho de ter participado. SESC Poméia lotado, público receptivo, e não era um show tão fácil assim, boa parte das músicas não é tão conhecida. Mesmo assim a resposta foi super calorosa.

Quinteto em Branco e Preto

Quinteto em Branco e Preto, como sempre, é fogo na mata! A energia da rapaziada contagiou o púlbico. No disco, o Quinteto participou tocando em todas as faixas, o que foi fundamental para o resultado do projeto, porque o som já vem pronto, amarradinho, bem resolvido e cheio de malandragens, ritmo e harmonia conversando em sintonia total.

João Borba

João Borba, elegantíssimo, encantou o público com uma interpretação inspirada em “Violão Gentil”, presente no disco também.

Eduardo Gudin

E pra fechar, não podia faltar o próprio, Eduardo Gudin, compositor homenageado neste trabalho. Pra mim vai ficar guardado na lembrança o abraço apertado do Gudin no final do show, agradecendo pelo cuidado e o carinho com sua obra. Não podia ser outra a não ser “Velho Ateu” pra fechar o show. Duas vezes!

Numa de suas poucas idas ao estúdio durante a gravação, Gudin ficou emocionado com o arranjo de “Longe de casa”, parceria com Paulo Vanzolini, disse que essa é a gravação definitiva da música. A letra, na verdade, é uma poesia, escrita pelo Vanzolini há mais de 50 anos, quando ele estava fora do país, estudando, e que anos depois foi musicada.

“Longe de casa eu choro
E não quero nada
Pois fora do chão ninguém quer
E não pode nada
Sinto falta de São Paulo
De escutar na madrugada
Uns bordões de violões
E uma flauta a chorar prata”

Outro grande momento do CD é a música que dá nome ao álbum, “Olha quem chega”, primeira (de muitas) parcerias entre Gudin e Paulo César Pinheiro, gravada originalmente pela Elizeth Cardoso. A leveza do arranjo, um dos mais trabalhados, e a interpretação ímpar da Inah deram um ar solene à música. Uma grande alegria foi ter trabalhado com a pianista Débora Gurgel, que, além de talentosíssima, é uma pessoa iluminada. Débora assinou os arranjos de “Santo Dia” e “Desperdício”. “Praça 14 Bis”, homenagem à Vai-Vai e ao Bixiga é uma espécie de “Ode à alegria”, a Nona Sinfonia de Beethoven, em forma de samba. Os instrumentos vão chegando aos poucos, se aglutinando, como sugere a letra (Um samba muito bom que me contagiou). Daí surgiu a idéia de citar a música “Consideração”, também parceria com P.C. Pinheiro.

“Toda cidade vai cantar
E finalmente vai voltar
O tempo da paz, dos tempos atrás
O tempo da consideração
Quando era menos ambição
E o coração valia muito mais

Depois dessa, fico por aqui!

Veja também:
no Estadão
Débora Gurgel

Eduardo Gudin

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OLHA QUEM CHEGA – DONA INAH (2008)

Com muito orgulho, apresento meu primeiro trabalho assinando arranjos e direção musical. “Olha quem chega”, da Dona Inah, lançado pela Dabliú. Pouco mais de um ano de trabalho e eis que chega a hora do lançamento, nesta quinta (30/10), no SESC Pompéia.

O disco contou com a colaboração do Quinteto em Branco e Preto, meus irmãozinhos de fé e som. Jorge Neguinho e Gerson da Banda (ritmo), Léo Rodrigues (pandeiro), Gian Corrêa (violão de 7) e Henrique Araújo (cavaco e bandolim) completaram a espinha dorsal desse trabalho, sem contar o Marquinho Bailão, que, além de tocar, foi as pernas e os braços desse disco, e ainda as participações especialíssimas de Débora Gurgel, Zé da Velha e Silvério Pontes, Alessandro Penezzi e João Borba, entre outros grandes. Um disco bem tocado, bem gravado e com repertório escolhido a dedo: só músicas de Eduardo Gudin. Vai ter muito tempo pra falar sobre um monte de coisas desse disco, o que eu queria mesmo era falar da Dona Inah.

Sobre a Dona Inah… Tem gente que é do bem. Dona Inah é assim. Fiquei um bom tempo tentando escrever um texto sobre ela, até mesmo como uma forma de agradecimento (já que poucos tem coragem de confiar um trabalho desse porte a alguém que está apenas no início da carreira), mas sempre ficava um pouco burocrático e eu queria um texto bonito. Eis que aparece a poesia do nosso amigo e poeta Rogério Nóia, dizendo sucinto e elegante tudo aquilo que eu tinha em mente. Aqui vai:

 UM CANTO SABIDO 

Se varri ruas, bati portas

Não importa, sempre cantei…

Cantei semeando jardins e hortas

Sem importar-me, nunca, se errei!

 

Ora, erros? Foram-se…

Fez-se hora

De colher as flores que plantei

Sem passado, sem futuro

Sou agora

Hoje canto aos vassalos e ao rei!

 

Canto!

Canto pois que a dor e a alegria

São cantos que sonhei!

Canto!

Canto espantando a agonia

Que cantadora, a vida me fez

 

E se esse meu canto sofrido

Chegar a todos os ouvidos que amei

Será, de fato, meu canto vivido,

Pois saberei porque cantei.

Rogério Nóia, para Dona Inah (14/05/2008)

E acabei me lembrando de outra coisa, um comentário do Délcio Carvalho, referindo-se a um monte de gente igual que tem aparecido por aí: “Tem um monte de gente querendo cantar igual lavadeira. Pra cantar igual lavadeira, primeiro tem que aprender a lavar roupa…”

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PROGRAMA ENSAIO – 1 2

Sorte de principiante é isso aí. Depois de muitos anos assistindo o programa e imaginando como seria ter a honra de gravar um, em julho desse ano tive a sorte de gravar dois, e com duas grandes figuras do samba. O primeiro com o cantor Roberto Silva, o segundo, com a Beth Carvalho. Vou falar do Roberto.

Assim que o Paulo Félix, produtor que cuida dos assuntos do Roberto em São Paulo, me fez o convite pra integrar a banda de cá – não precisei pensar muito pra aceitar – fui logo consultar meus arquivos e lá estavam: “Descendo o Morro”, volumes 1 e 2, acervo básico e obrigatório na discoteca de qualquer músico e/ou apreciador de samba.

Obrigatórios, primeiro, pelo repertório: praticamente todos os sambas gravados na série fizeram sucesso e tornaram-se clássicos, cantados em rodas de samba e bailes pelo país afora até hoje. Só pra citar alguns: “A mulher do Seu Oscar”, “Agora é cinza”, “Ai! Que saudade da Amélia”, “Falsa Baiana”, “A voz do morro”, “Pisei no despacho”, “Se acaso você chegasse”, “Rugas”, “Você tá sumindo”, “Escurinho” são os que me lembro de cabeça. Um CD com esse repertório hoje seria considerado “caça-níquel”, diriam até que é covardia!

Segundo, porque com Altamiro Carrilho tocando, arranjando e produzindo, além de grandes figurinhas carimbadas da época, Abel Ferreira, Raul de Barros, Canhoto, Dino, Meira e por aí vai, os discos são verdadeiras aulas de samba. E nós, que somos do metiê, crentes ou não nas religiões afro-brasileiras, praticantes ou não, sabemos que o Samba é um Orixá, um Nkissi, e que o Ele (ou “Ela”, porque na tradição angolana, samba quer dizer “senhora”) gosta de ser cultuado e respeitado como tal. Ouvindo todos aqueles sambas de novo mas com atenção triplicada, me ocorreu que cada uma daquelas músicas parecia uma Entidade, com sua saudação, sua roupa, sua dança, sua comida. Não dava pra fazer outra coisa senão tirar tudo como está nos discos.

E foi com grande satisfação que acompanhei o “Seu” Roberto pela primeira vez lá no SESC Taubaté, em março/08, tocando tudo do original. E juro: toda vez que a voz majestosa do Roberto Silva, com 87 anos e cheio de saúde, entrava logo após cada um dos arranjos, parecia um Santo aceitando uma oferenda. E viajei no tempo e pensei em gente que fez muito pelo samba e pela cultura nacional e recebeu nada ou quase nada em troca, e ali estava eu, diante de uma dessas grandes figuras que merece muito respeito.

Fica então esse belo presente no dia do meu aniversário. Hoje, 17 de semtembro de 2008, eu completo 28 anos e vai ao ar o Programa Ensaio com o Roberto Silva, terceiro dele, primeiro meu.

veja também: http://www.overmundo.com.br/overblog/roberto-silva-o-principe-que-vive-como-rei

E no Youtube:

Se acaso você chegasse
Falsa baiana

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