trecho extraído do livro “Kitábu – o livro do saber e do espírito negro-africanos” de Nei Lopes, ed. Senac Rio.

1. A música não deve ser somete uma arte do espírito e da alma, mas também uma arte do corpo. No corpo, o ritmo da respiração e da circulação, bem como o estado de vigília e o do sono, mantêm a vida, religando-os aos ritmos primordiais do cosmo.

2. À música cabe expressar, no plano humano, a harmonia dos vastos ritmos do Universo. Assim, a dança deve ser um estado em que o dançarino se vista das forças vitais que gravitam em torno dele para estar de acordo com os ritmos do cosmo, identificando-se com eles e participando da ordem universal.

3. A música não é um luxo, mas um modo de vida. Por meio dela o ser humano expressa, nas festas, sua alegria de viver; nas ocasiões solenes, seu orgulho e refinamento; nos rituais religiosos, sua fé e contrição; em tudo, seu amor; no trabalho, seu vigor; no lar, sua simplicidade; e na guerra, sua coragem.

4. A música deve ser o exemplo vivo do patrimônio cultural de um povo. Ela concentra toda uma série de associações sociais e culturais e não pode ser abstraída do seu contexto.

5. A música tem de utilizar sons rigorosamente modulados para expressar suas idéias e sentimentos ligados a um certo ritual ou função, transformando-os, assim, numa experiência nova e de outro nível, aumentando nosso prazer e nossa compreensão.

6. Por intermédio do chamado aos espíritos ancestrais e entidades superiores, a música cria um vínculo entre o mundo dos vivos e dos mortos e das divindades. Ela acompanha também a transmissão oral da história, do saber e dos contos e as várias formas de recitação poética.

(…)

11. A música está presente na vida humana, do berço à sepultura, como parte viva de uma cultura que transcende e transforma a experiência cotidiana. No Universo, todas as coisas dançam uma mesma música cósmica, cujos ritmos e melodias traduzem as palavras das forças espirituais. Assim falou Mbabi-Katana”

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