Sorte de principiante é isso aí. Depois de muitos anos assistindo o programa e imaginando como seria ter a honra de gravar um, em julho desse ano tive a sorte de gravar dois, e com duas grandes figuras do samba. O primeiro com o cantor Roberto Silva, o segundo, com a Beth Carvalho. Vou falar do Roberto.
Assim que o Paulo Félix, produtor que cuida dos assuntos do Roberto em São Paulo, me fez o convite pra integrar a banda de cá – não precisei pensar muito pra aceitar – fui logo consultar meus arquivos e lá estavam: “Descendo o Morro”, volumes 1 e 2, acervo básico e obrigatório na discoteca de qualquer músico e/ou apreciador de samba.
Obrigatórios, primeiro, pelo repertório: praticamente todos os sambas gravados na série fizeram sucesso e tornaram-se clássicos, cantados em rodas de samba e bailes pelo país afora até hoje. Só pra citar alguns: “A mulher do Seu Oscar”, “Agora é cinza”, “Ai! Que saudade da Amélia”, “Falsa Baiana”, “A voz do morro”, “Pisei no despacho”, “Se acaso você chegasse”, “Rugas”, “Você tá sumindo”, “Escurinho” são os que me lembro de cabeça. Um CD com esse repertório hoje seria considerado “caça-níquel”, diriam até que é covardia!
Segundo, porque com Altamiro Carrilho tocando, arranjando e produzindo, além de grandes figurinhas carimbadas da época, Abel Ferreira, Raul de Barros, Canhoto, Dino, Meira e por aí vai, os discos são verdadeiras aulas de samba. E nós, que somos do metiê, crentes ou não nas religiões afro-brasileiras, praticantes ou não, sabemos que o Samba é um Orixá, um Nkissi, e que o Ele (ou “Ela”, porque na tradição angolana, samba quer dizer “senhora”) gosta de ser cultuado e respeitado como tal. Ouvindo todos aqueles sambas de novo mas com atenção triplicada, me ocorreu que cada uma daquelas músicas parecia uma Entidade, com sua saudação, sua roupa, sua dança, sua comida. Não dava pra fazer outra coisa senão tirar tudo como está nos discos.
E foi com grande satisfação que acompanhei o “Seu” Roberto pela primeira vez lá no SESC Taubaté, em março/08, tocando tudo do original. E juro: toda vez que a voz majestosa do Roberto Silva, com 87 anos e cheio de saúde, entrava logo após cada um dos arranjos, parecia um Santo aceitando uma oferenda. E viajei no tempo e pensei em gente que fez muito pelo samba e pela cultura nacional e recebeu nada ou quase nada em troca, e ali estava eu, diante de uma dessas grandes figuras que merece muito respeito.
Fica então esse belo presente no dia do meu aniversário. Hoje, 17 de semtembro de 2008, eu completo 28 anos e vai ao ar o Programa Ensaio com o Roberto Silva, terceiro dele, primeiro meu.
veja também: http://www.overmundo.com.br/overblog/roberto-silva-o-principe-que-vive-como-rei
E no Youtube:
Se acaso você chegasse
Falsa baiana


